sábado, 26 de maio de 2018

Entoando Campo Grande

    Os hinos fazem parte de qualquer sociedade. Podem ser cívicos, nacionais, religiosos, entre outros. Uma definição de hino pode ser: "composição musical com letra apropriada para celebrar alguém ou alguma coisa". No caso do Brasil, temos como exemplos o Hino Nacional, o Hino da Independência, o da Proclamação da República, o da bandeira, entre outros.
    No caso do bairro de Campo Grande, este possui dois. Abaixo, o primeiro hino a Campo Grande é da autoria do dentista Dr. Newton de Almeida Costa e está registrado na Escola Nacional de Música em data 10 de maio de 1946.

    Abaixo, a letra do segundo hino de Campo Grande, de autoria do poeta Manuel Pôrto Filho.

    UM HINO A CAMPO GRANDE

    Campo Grande, torrão mui querido,
    abençoado rincão todo meu,
    quem te vê ou de ti é nascido
    para sempre de amor se prendeu.
    Verdejante jardim sertanejo,
    doce lar entre montes gentis,
    és o Orgulho, a Canção e o Desejo
    de teu povo tranquilo e feliz!
    Campo Grande, ouve as vozes que vêm
    das crianças, de todos também:
    "Mais e mais te amaremos,
    bem maior te faremos,
    e a servir-te, felizes, diremos:
    Campo Grande, tu és nosso bem!"
                                                                          M. Pôrto Filho

Informações e imagem retiradas do livro "Campo Grande", de Moacyr Sreder Bastos

terça-feira, 24 de abril de 2018

A lenda do Vulcão do Mendanha

Ilustração: Wellington Mateus dos Santos Baldez
*História (ou conto) baseado na curiosidade de meu filho, Lucas Xavier, de 6 anos, sobre o suposto Vulcão do Mendanha.

    Era mais um dia comum no bairro de Campo Grande. Era mais uma manhã de sexta-feira. As pessoas indo para o trabalho, estudantes para a escola, automóveis num vaivém incessante. Enfim, mais um dia. Eis que, da Estrada do Mendanha, na altura do West Shopping, algumas pessoas começam a avistar algo de estranho, vindo da Serra do Mendanha. Uma nuvem cinzenta com lavas incandescentes preenchiam a paisagem daquele local. Logo as pessoas deram conta que se tratava do famoso vulcão do Mendanha ou Vulcão de Nova Iguaçu. O até então extinto e adormecido vulcão acabara de acordar, depois de milhões de anos.
    Em poucas horas, suas lavas de fogo desciam pela serra e chegavam à Avenida Brasil. O caos se instalara. O vulcão, depois de tanto tempo inativo, parecia que estava a fim de descontar o tempo perdido, liberando gases e explosões violentíssimas, apresentando até relâmpagos.
    O povo, na parte debaixo, ficara atordoado, vendo aquela cena. E agora? O que fazer? Afinal de contas, nem o Rio de Janeiro, nem o Brasil estão acostumados com esse tipo de evento.
    E a catástrofe continuava e avançava. A lava já corria em direção à Estrada do Mendanha. A vegetação facilmente pegava fogo, espalhando-se rápido com a ajuda do vento. O Corpo de Bombeiros fora acionado para, pelo menos, amenizar o problema. Pessoas desesperadas abandonavam seus carros e procuravam abrigo. Um povo, até então orgulhoso por não presenciar vulcanismo e terremotos de grande magnitude, atordoado observava o apocalipse de perto.
    O bairro, literalmente parado, só esperava o fim do espetáculo do Vesúvio tupiniquim. "Isto é só o fim", dizia um morador, com os olhos vermelhos, não se sabe de choro, aflição, fumaça ou tudo junto.
    Porém, no final daquele dia, o gigante despertado já dava sinais de cansaço, diminuindo suas atividades. No dia seguinte, já não havia quase nenhum vestígio de atividade vulcânica. Claro que ficaram o cheiro das cinzas e a paisagem devastada pelo fogo. Mas o vulcão, aparentemente, tinha voltado para seu estágio de sono eterno, ou próximo disso.
    Aos poucos, a população de Campo Grande e adjacências foi voltando à sua rotina, juntando os cacos, limpando aqui, removendo ali, tentando esquecer o Armagedom  que vivera um dia atrás.
    Mas, o que será que havia acontecido? O Brasil, geologicamente, não pode ter atividades vulcânicas, já que não está em encontro de placas tectônicas.
    O que sabe é que o bairro teve seu dia de Pompeia (com devidos exageros, é claro). Se existia alguma dúvida se o suposto Vulcão do Mendanha era mesmo um vulcão, não restava mais.
    É bom não duvidar de Hefesto, ou Vulcano, deus do fogo e do vulcão. Vai que ele resolve acordar de novo!

*Os exageros foram propositais.

Mapa da localização da cratera de vulcão do Mendanha (O Globo, Zona Oeste, 14 de agosto de 1988. p.9) - imagem retirada do livro Rumo ao Campo Grande por trilhas e caminhos, de Fróes e Gelabert.

    Em 1938, Alberto Ribeiro Lamego descobriu vestígios de um suposto vulcão extinto em Campo Grande, na Serra do Mendanha. Lamego observou rochas de origem vulcânica e partes de relevo parecida com uma chaminé, que passou a ser conhecida como "a chaminé do Lamego".
    Em 1979, foi descobreto no município de Nova Iguaçu, um vulcão extinto.
    Após anos de debates, propagação da mídia defendendo a existência de um vulcão no Rio de Janeiro, geólogos e estudiosos do assunto chegaram a conclusão que não existe vulcão na região, apenas uma estrutura geológica externa que lembra um vulcão. Foi discutido que havia erupções vulcânicas explosivas nesta região, com formação de edifícios vulcânicos em tempos bem remotos, porém, com as transformações do tempo, erosão e soerguimento, houve uma mudança que eliminou completamente a morfologia e os depósitos eruptivos daquela era geológica.
    Assim, o que é fato é uma ausência de cratera, cone, bomba vulcânica e lava, consequentemente, inexistência de um vulcão extinto de fato, segundo os estudiosos do caso.

   

sábado, 24 de março de 2018

Aconteceu num Domingo de Ramos

Imagem. Fonte: Colégio Diocesano de Caruaru.

    O Domingo de Ramos, para quem não segue o catolicismo, é aquele domingo que antecede o Domingo de Páscoa, tão esperado e aguardado devido à distribuição de chocolates. Para os católicos, o Domingo de Ramos possui muito mais relevância, já que se trata da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado em um jumento, considerado um animal da paz, além de representar a humildade. Segundo a tradição, quando um rei chegava montado num cavalo, queria a guerra; já quando chegava em um jumento, procurava a paz. Assim, a entrada de Jesus em Jerusalém o colocava como o "príncipe da paz".
    Porém, em um certo Domingo de Ramos, mais precisamente em 1716, ocorreu a "guerra" ao invés de ter a "paz", na Igreja de Nossa Senhora do Desterro, Matriz de Campo Grande, quando ainda localizava-se nas terras de Bangu. 
    Um dos principais fazendeiros do templo, João Manuel de Mello, encontrava-se na igreja, no tradicional dia celebrado pelo catolicismo. Num certo instante, dois outros fazendeiros, José Pacheco e José Gurgel, acompanhados de um bando de capangas e escravos, entram na igreja e matam João Manuel. Trágico, não!? Mas teve mais. Como é de costume e um dos sacramentos da Igreja Católica, o padre foi dar a extrema-unção, quando...também foi assassinado.
    Relatado pelo ouvidor-mor,  Fernando Pereira de Vasconcellos, ao Conselho Ultramarino, instituição portuguesa responsável por várias questões relativas às colônias, o crime acabou por esvaziar a igreja e "forçar" a mudança de local para o atual bairro de Campo Grande. Há indícios que os assassinos nunca foram presos, mesmo com o pedido de justiça feito pela viúva do falecido fazendeiro e com a promessa de recompensa, feita pelo então governador, àqueles que porventura os trouxesse (vivos ou mortos).
    E assim foi um certo Domingo de Ramos na Igreja de Nossa Senhora do Desterro, um certo "sunday bloody sunday", em que o cavalo da guerra prevaleceu sobre o jumento da paz. Direto do túnel do tempo.

    Fonte consultada: O Velho Oeste Carioca, volume III. André Luis Mansur.

sábado, 17 de março de 2018

O Algodão de Campo Grande

    O Centro Esportivo Miécimo da Silva é considerado o maior complexo esportivo pertencente a uma prefeitura em todo o Brasil. Localizado no bairro de Campo Grande, este tem como destaque o Ginásio Algodão, que homenageia um dos melhores jogadores de basquete do Brasil de todos os tempos, Zenny de Azevedo, o Algodão.
   
    O famoso jogador de basquete nasceu em Realengo, em 01 de março de 1925, ganhando o apelido ainda criança. Mudou-se para Campo Grande aos 12 anos. Algodão chegou a jogar vôlei, mas depois virou-se para o basquete, jogando no Clube dos Aliados de Campo Grande. Com seus 1,85 de altura, em seguida foi para o Flamengo, vivendo grandes momentos em sua carreira, mesmo numa época em que a prática esportiva não era uma profissão.
    O craque também brilhou na Seleção brasileira, de 1948 a 1960, participando de quatro Olimpíadas consecutivas. Ganhou sua primeira medalha em Londres, em 1948, conquistando o bronze, e em 1960, nas Olimpíadas de Roma, voltou a conquistar a medalha de bronze. Jogou três campeonatos mundiais, sagrando-se campeão com a seleção em 1959, no Chile. Além disso, ainda pela Seleção brasileira, conquistou três medalhas de bronze nos Jogos Pan-Americanos.
   

    Algodão casou-se em 1953, com Therezinha de Jesus Rocha Azevedo, com quem teve três filhos. Sempre conseguiu seu sustento e de sua família como professor de educação física, até perto de seu falecimento. Algodão trabalhou na Faculdade de Educação Física Moacyr Bastos, com jovens da FUNABEM, Escola técnica de Química, entre outras, além de treinar jovens da Escolinha do Colégio Afonso Celso.
    Depois que parou de jogar, passou a viajar com os veteranos. Faleceu em 10 de março de 2001, aos 76 anos. Seu corpo foi velado no ginásio do Colégio Afonso Celso, no bairro de Campo Grande.
   
Todas as fotos. Fonte: Centro Esportivo Miécimo da Silva.
Artigo baseado em informações do Centro Esportivo Miécimo da Silva.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Por dentro da Matriz de Campo Grande

Foto. Fonte: Carlos Eduardo de Souza.
Pintura de Alan Castilho, restaurador e artista visual. O mesmo é responsável pela restauração interna, além do painel externo e o oratório da Igreja de Nossa Senhora do Desterro, em Campo Grande.

    Localizada numa pequena elevação, no centro econômico e comercial do bairro de Campo Grande, a Igreja de Nossa Senhora do Desterro possui uma história que acaba se confundindo com a origem do bairro. A construção da Capela original se deu em 1673, em terras que atualmente localiza-se o bairro de Bangu. Segundo alguns pesquisadores, também nesse ano, foi criada a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande. Ainda em terras que hoje é o bairro de Bangu, a capela é palco de uma tragédia, no ano de 1716, com assassinatos, incluindo a de um padre. Mais tarde, a igreja "mudou-se" para uma área onde atualmente encontra-se o bairro de Campo Grande.
    Em 1757 é concedido o Alvará, que é o título da criação de uma freguesia. Por isso, para alguns historiadores, só a partir dessa data é que realmente foi criada a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande. Já em solos campograndenses, em 1882, a igreja passa por outro momento terrível: o templo sofre um incêndio, praticamente destruindo a Paróquia. Porém, com a atitude e os esforços do Padre Belisário dos Santos, de fazendeiros e de autoridades, a Igreja foi reconstruída.
    Em seu interior, é possível encontrar anotações antigas nas paredes que dão acesso aos sinos, feitas por colaboradores (talvez pintores) que atuaram nas reformas que aconteceram na igreja.


Fotos. Créditos: Carlos Eduardo de Souza

Abaixo, imagens de um sino da Paróquia e de orientações sobre este

Fotos. Créditos: Carlos Eduardo de Souza

    No local do presbitério e no altar-mor, abaixo encontra-se um ossário, que abriga restos mortais do padre Belisário dos Santos, de Freire Alemão, botânico e médico conceituado que nasceu e morreu no bairro, além de famílias ilustres do bairro.
Foto. Crédito: Carlos Eduardo de Souza

    No teto e nas paredes do templo, imagens que ilustram o religioso.
Abaixo, uma imagem de Jesus Cristo, considerada uma arte Roca, porém, incompleta. Essas imagens eram usadas em procissão, mas perderam espaço para as imagens de gesso, com a chegada da industrialização. O detalhe é o "cabelo", que lembra muito o de um humano.
Foto. Crédito: Carlos Eduardo de Souza

Outros "pertences" da  Paróquia
Órgão de muitas décadas atrás


Capela ou oratório localizado ao lado da Paróquia, sob o domínio da mesma


Imagens no teto da Igreja

    Imagem de Damião de Molokai, padre que partiu em missão para o arquipélago do Havaí para cuidar de pessoas atingidas por uma epidemia de lepra que havia se instalado no local. A imagem se encontra no que chamam de átrio da igreja.

Foto tirada de dentro das torres dos sinos da Paróquia

Abaixo, imagens antigas da Igreja, localizadas em amostras na própria Paróquia


Fotos e Reproduções: Carlos Eduardo de Souza

Colaboração para o artigo: Deca Serejo



domingo, 7 de janeiro de 2018

A "Reforma" em Campo Grande

    O ano de 2017 marcou um fato histórico muito importante: os 500 anos da Reforma Protestante. Mais do que uma ruptura na Igreja Católica, ou uma criação de uma nova religião, o movimento iniciado por Lutero significou grandes mudanças religiosas, políticas, sociais e econômicas, que refletem até os dias atuais, em todo o mundo.
    No Brasil, o catolicismo foi a religião oficial do Estado até 1889, quando houve a Proclamação da República. Assim, a Igreja Romana possuiu um vínculo forte e dominador no Brasil Colônia e Império.
    No bairro de Campo Grande não foi diferente, pois este praticamente teve sua origem relacionada à uma capela, Nossa Senhora do Desterro, consequentemente a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande. Além disso, até o fim da relação da Igreja Católica com o Estado, outras igrejas católicas de grande relevância surgiram no bairro da Zona Oeste, como a de Santo Antônio dos Pobres, de Santa'Ana, entre outras.
    Porém, com a já citada Proclamação da República e a separação Igreja Católica - Estado, os ventos da Reforma Protestante começaram a soprar mais fortes no Brasil, inclusive na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Aí surge a história da Primeira Igreja Batista de Campo Grande. Atualmente localizada na Rua Ferreira Borges, a igreja protestante teve sua fundação em 1903, no bairro de Santa Cruz. A explicação para ela ter sido implantada primeiro no bairro próximo a Campo Grande, é que Santa Cruz possuía uma relevância histórica mais importante, população concentrada e administração pública mais sólida, sendo palco de visitas e inaugurações feitas pelos imperadores do Brasil, enquanto que Campo Grande era um povoado simples, uma passagem para Santa Cruz.
    Entretanto, a Igreja Batista transferiu-se para Campo Grande anos mais tarde, quando este já se projetava como um bairro promissor. Assim, no dia 09/08/1919, é instalada ou "realocada" a Primeira Igreja Batista de Campo Grande, agora, de fato, no bairro de mesmo nome.


Imagens da Primeira Igreja Batista de Campo Grande em tempos remotos.
Fonte: Gilson do Carmo Batista
Foto mais atual da Primeira Igreja Batista de Campo Grande
Fonte: Gilson do Carmo Batista

    É importante salientar que, assim como ocorreu com a Igreja Batista, transferindo-se de um outro bairro para Campo Grande, o mesmo aconteceu com a Igreja Católica Nossa Senhora do Desterro, ao mudar-se de Bangu (à época parte do chamado "o Campo Grande"), para o atual bairro de Campo Grande, posteriormente.

Bibliografia utilizada: "A inusitada trajetória de uma Igreja Centenária", de Gilson do Carmo Batista.
Agradecimentos especiais ao mesmo Gilson do Carmo Batista.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O glorioso Restaurante Pepe e o saudoso 10 de Maio

Foto. Fonte: face Antigo Campo Grande

    A imagem acima remete a dois pontos muito importantes que já existiram lado a lado na Avenida Cesário de Melo, na altura do bairro de Campo Grande. Um é o lendário Restaurante Pepe, ou Bar do Pepe, muito frequentado por moradores do bairro e adjacências. Segundo algumas informações, Pepe era um garçom de origem espanhola, e que o bar, antes de ter seu nome, possuía o nome de Bar do Castro. Além disso, uma outra curiosidade sobre o restaurante é que este era uma espécie de point de encontro de botafoguenses. Depois de muito marcar a paisagem do bairro de Campo Grande, o famoso Bar do Pepe deixa de existir, dando lugar, atualmente, a uma drogaria.

Local atual, já com a drogaria no lugar do restaurante. Fonte: Carlos Eduardo de Souza

    O outro ponto importante é o clube 10 de Maio. Citado na música "Meu bairro", de Adelino Moreira, o Clube 10 de Maio, ou Sociedade Musical 10 de Maio, surgiu na década de 1940, tendo como um de seus fundadores Francisco Caldeira de Alvarenga, um comerciante que mantinha uma banda musical na Rua Coronel Agostinho, atual Calçadão de Campo Grande, que inclusive era onde ficava sua residência.
    Na década já citada, Francisco reuniu-se com outras pessoas e decidiram comprar um terreno para ser sede da banda. Assim foi criada a Sociedade Musical 10 de Maio. Moradores lembram com nostalgia as atrações do clube, como os bailes, festas e, inclusive, desfile de miss. Atualmente, o clube já não possui as atrações de outros tempos.

Contribuição para o artigo: Deca Serejo.